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Simplicidade e eficiência em ônibus

Publicado pelo Jornal do Commercio – Cidades, 22/11/2009

A Região Metropolitana do Recife começa a dar os primeiros passos na tentativa de entrar na era da mobilidade, com transporte público eficiente e rápido. A perspectiva de que uma linha expressa de ônibus, espelhada no modelo curitibano de transporte, com embarque em nível, pagamento antecipado das passagens e segregada do trânsito ligue os extremos do Grande Recife animou a todos. O JC foi à fonte do transporte do futuro, a cidade de Curitiba, para ver de perto se o modelo que Pernambuco planeja importar funciona. Amanhã, confira as exigências urbanas para implantar o projeto.

Simplicidade e eficiência. Esse é o alicerce do sistema de transporte da cidade de Curitiba, no Paraná, cujo modelo Pernambuco ensaia importar para construir uma nova proposta de mobilidade na Região Metropolitana do Recife. Um eixo exclusivo de ônibus com 45 quilômetros de extensão, ligando o norte ao sul do Grande Recife, batizado de Corredor Norte-Sul. Não há mistério. Se o Estado conseguir cumprir a lição de casa ensinada pelos técnicos curitibanos, com 35 anos de experiência, teremos um sistema de primeiro mundo. Um transporte do futuro.

A ideia de ter um ônibus a cada minuto pode parecer ilusão para muitos dos quase dois milhões de passageiros que se espremem, diariamente, nos coletivos da cidade. Mas essa realidade é possível. Nos horários de maior movimento, no início da manhã e da noite, há veículos passando a cada 50 segundos nos seis eixos de transporte existentes na capital paranaense. Pernambuco pretende copiar o modelo, ao custo de R$ 300 milhões. O JC conferiu de perto a eficiência do sistema. Problemas existem, até porque a necessidade de mobilidade nas cidades brasileiras só aumenta, mas o que se pretende importar para o Grande Recife é bom e funciona.

O segredo da funcionalidade da Rede Integrada de Transporte de Curitiba (RIT) está em quatro pontos: pagamento antecipado das passagens, feito nas estações-tubo, embarque de passageiros em nível, a parada fica rente à entrada do ônibus, evitando que as pessoas enfrentem obstáculos, como degraus, veículos biarticulados e estações com cinco portas para dar vazão ao embarque e desembarque dos usuários, e circulação dos coletivos em canaletas exclusivas, totalmente segregadas dos automóveis. Somente com o embarque em nível e o pagamento antecipado, os curitibanos economizam, no mínimo, um terço do tempo para acessar o ônibus.

“O modelo criado pode ser levado para qualquer cidade, com custo relativamente barato, comparado ao do metrô, por exemplo, e de eficiência garantida. Exatamente por isso: não propomos mágica. Ao contrário, uma operação racional, sem perda de tempo. Esse é o segredo da eficiência. Desde a década de 70, construímos cinco eixos, totalizando 70 quilômetros de vias prioritárias ao ônibus, ao custo de US$ 500 milhões. Sendo que, 70% foram gastos com a compra de veículos e apenas 30% representaram investimentos públicos”, defende o arquiteto e urbanista Carlos Ceneviva, do Instituto Jaime Lerner Arquitetos Associados. Ceneviva foi quem, ao lado do ex-prefeito e ex-governador Jaime Lerner, implantou a RIT de Curitiba e é o coordenador do projeto do Corredor Norte-Sul no Grande Recife.

Há um ano, com a construção da Linha Verde – corredor implantado no degradado trecho urbano que a BR-116 fazia de Curitiba – os eixos passaram a ser seis, totalizando 81 quilômetros de vias exclusivas para o ônibus. Curitiba, assim como o Recife, começou com dois eixos: o norte e o sul, atualmente os que têm maior demanda. Trinta e cinco anos depois, o sistema tomou conta da capital paranaense e garantiu a integração físico-tarifária de 14 dos 26 municípios da Grande Curitiba. Além do norte e sul, que juntos transportam 372 mil passageiros, os eixos leste e oeste são usados diariamente por 195 mil, o eixo Boqueirão (quase paralelo ao sul) transporta mais 125 mil pessoas e a Linha Verde outros 18 mil passageiros.

Além dos corredores exclusivos, a rede é composta por linhas interbairros, alimentadoras urbanas e metropolitanas e linhas diretas, que trafegam fora das canaletas, no sistema viário, misturadas ao tráfego de automóveis. De forma geral, esse sistema transporta 2,3 milhões de passageiros por dia. Desse total, quase 900 mil fazem uso das canaletas coletivas. Em Pernambuco, de 1,8 milhão de usuários, inicialmente 300 mil farão uso do Corredor Norte-Sul. “Mas a ideia é que os eixos sejam ampliados para outras vias importantes do Recife”, argumenta Carlos Ceneviva.

O que Pernambuco, segundo os especialistas, precisa copiar dos curitibanos vai além das intervenções físicas que garantem espaço do transporte de massa sobre o individual. Necessita incorporar a concepção de que o transporte público deve ser prioridade e moldar a cidade a partir dele. “É algo cultural, incorporado pelo curitibano. É por isso que o Corredor Norte-Sul precisa ser bem feito, principalmente nos detalhes. A sociedade recifense cultua o automóvel e o poder público valida esse culto. Se não houver empatia com a proposta, vai virar um Corredor Leste-Oeste, com falhas primárias, como o retrovisor dos ônibus batendo nos passageiros parados nas estações de embarque”, alerta o diretor regional da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP) no Nordeste, César Cavalcanti.

Ao andar nos coletivos de Curitiba, detalhes refletem o que fala o técnico. Na maioria dos ônibus há sistema eletrônico de informação das paradas e lixeiras. A degradação existe, principalmente em alguns terminais, mas os ônibus têm hora para chegar e sair, gerando confiabilidade, regra primordial para o sucesso de um serviço de transporte.

Modelo curitibano também tem falha

O sistema de transporte de Curitiba que Pernambuco pretende copiar enfrenta alguns problemas. Perdeu 12 milhões de passageiros desde o início do ano e lida com um déficit financeiro de R$ 9,2 milhões. Muitos desses usuários trocaram os ônibus pelo automóvel – alguns assustados com a gripe suína – ou passaram a andar a pé ou de bicicleta por não conseguir pagar o valor da tarifa: R$ 2,20, R$ 0,35 mais caro que a passagem cobrada no Recife.

Embora Pernambuco planeje importar apenas o que deu certo no modelo curitibano, é fato que parte dessas deficiências deverá chegar aqui. O principal gargalo dos problemas em Curitiba são as linhas alimentadoras, que trazem os passageiros dos bairros mais distantes e da Grande Curitiba para os terminais existentes nos eixos. Elas não andam nos eixos de transporte, mas em meio ao tráfego normal, entre os carros. Na capital paranaense, há linhas alimentadoras que estão demorando 15 minutos, mesmo nos horários de pico. O tempo é muito menor do que o perdido por muitos usuários do Grande Recife, mas para os curitibanos é uma eternidade.

“Mesmo com muitos ônibus, não dá vencimento. Às 18h, eu espero dez minutos por um coletivo e, muitas vezes, não consigo entrar de tão cheio. É preciso que coloquem ônibus biarticulados”, critica a vendedora Dione Gomes, que diariamente passa pelo Terminal do Cabral, localizado no eixo Norte, o segundo mais movimentado da cidade.

De olho nas reclamações dos exigentes usuários, acostumados à qualidade, a URBS (Urbanização de Curitiba), gerenciadora do transporte na cidade, criou há mais de dez anos os ligeirinhos, uma linha que faz o mesmo percurso dos expressos que trafegam nos eixos, mas circulam fora das canaletas, entre os carros, parando apenas em alguns terminais e estações.

Agora, como a superlotação é um problema cada vez maior para o curitibano, a prefeitura já está fazendo adequações no eixo Boqueirão, criando áreas que permitam a ultrapassagem entre os ônibus. O projeto para o Grande Recife, por exemplo, já inclui a ultrapassagem. É uma falha de Curitiba que não será repetida. “Mas ainda não é suficiente e, por isso, vamos desativar os eixos Norte e Sul para dar lugar a um metrô, sobre eles, transportando mais de 400 mil pessoas por dia. Esses eixos têm perdido velocidade por causa dos cruzamentos com o sistema viário”, explica o presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), Cléver Almeida.

Promessa de coletivo a cada minuto na RMR.

A importação do jeito curitibano de fazer transporte público vai reduzir na metade o tempo de viagem dos 300 mil passageiros atendidos pelo futuro eixo Norte-Sul. Nos 45 quilômetros que o corredor terá entre Igarassu e Cajueiro Seco, ligando os extremos da Região Metropolitana, os ônibus passarão a cada um minuto, como acontece em Curitiba. Essa é a promessa do poder público, particularmente do governador Eduardo Campos, o mais empolgado com o projeto.

 

Diferentemente do modelo curitibano, o previsto para o Grande Recife ainda tem uma área elevada, a ser construída sobre a Avenida Agamenon Magalhães, a uma altura de seis metros do chão e numa extensão de sete quilômetros. Esse trecho ficará entre a Avenida Norte e o Complexo Joana Bezerra. “É um projeto ousado, que representará um incremento na mobilidade da população. Não temos mais como achar que a solução é abrir vias para os carros. Ao contrário”, defende João Braga, coordenador do Norte-Sul pelo Urbana-PE, sindicato dos empresários de ônibus.

 

A previsão é que as obras comecem no primeiro semestre de 2010. O Norte-Sul teria seis linhas (três delas expressas e três paradoras), com 43 estações de embarque e desembarque no trecho Norte, 11 no Central e 25 no Sul, além de cinco terminais (dois deles a serem construídos).

 

A base do sucesso

1 VIAS EXCLUSIVAS

É o grande marco do sistema de Curitiba. Não basta que o ônibus tenha uma faixa prioritária, é preciso que haja a segregação física dos outros tipos de veículos, impedindo que o transporte de massa dispute espaço com o individual, no caso o carro. Na capital paranaense, eles chamam de canaletas, que são separadas por calçadas de cada um dos lados. Assim, os ônibus chegam a alcançar até 30 km/h de velocidade comercial

2 VEÍCULOS BIARTICULADOS

Diferentemente dos ônibus do Recife, os coletivos possuem várias portas (até cinco, no caso dos biarticulados) e todas são abertas para agilizar o embarque e desembarque dos passageiros. Isso é possível porque a passagem é paga antecipadamente, eliminando o risco de perda de receita. Ao mesmo tempo, as estações-tubo têm o número de portas equivalente ao tipo de ônibus que circula no corredor onde estão instaladas

3 PAGAMENTO ANTECIPADO

 

Em Curitiba, assim como na proposta do Corredor Norte-Sul, a figura do cobrador sai do ônibus para as estações-tubo. Ou seja, o pagamento da passagem é feito antecipadamente, na estação ou parada. Dessa forma, o embarque dos passageiros não fica comprometido quando há demora na hora de dar o troco ou quando acontecem problemas com a leitura dos créditos eletrônicos

4 EMBARQUE EM NÍVEL

As plataformas de embarque e desembarque tanto dos terminais quanto das estações-tubo ficam na mesma altura dos degraus dos ônibus. Os coletivos também possuem plataformas acopladas às portas que são projetadas para fora, funcionando como uma espécie de ‘ponte’ para os passageiros. Fica tudo no mesmo nível. Assim, evita-se perda de tempo no embarque e desembarque das pessoas

5 ULTRAPASSAGEM

Esse é um detalhe que o sistema a ser implantado no Grande Recife poderá levar vantagem sobre o existente em Curitiba. Isso porque a proposta importada prevê que o Corredor Norte-Sul seja construído com áreas para ultrapassagem, como foi feito na Avenida Caxangá (Zona Oeste do Recife). Na capital paranaense, o projeto original não previa. Agora é que as adequações estão sendo feitas e, mesmo assim, apenas no eixo Boqueirão, o terceiro mais adensado dos seis existentes em Curitiba. Nos outros já não há espaço físico para promover a requalificação

6 TERMINAIS DE PASSAGEIROS

Os terminais não são de ônibus, como os que vemos no Grande Recife. Como os curitibanos gostam de afirmar, são terminais de passageiros. Têm uma estrutura física simples (às vezes até feia), composta praticamente de duas plataformas para embarque e desembarque dos dois lados. E não possuem área de estocagem de ônibus. Os veículos que não estão em operação devem permanecer nas garagens das empresas e, não, parados nos terminais. Para os curitibanos, pega mal o passageiro esperar um ônibus, enquanto uma frota inteira está parada ao lado.



Um comentário

  1. Jose Rodrigues de Matos disse:

    Desejo compra vale para pessoa fisica no caso não tenho empregado, mais desejo compra para mim o vale como devo me cadastrar para obter o vale transporte

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