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Série “Obstáculos da Mobilidade”: Ônibus e metrô sem prioridade

Ônibus, metrô, BRT, VLT. Nunca se falou tanto em dar prioridade ao transporte público para encontrar a tal mobilidade. Mas na prática, o transporte de qualidade permanece apenas nas promessas dos gestores. No Grande Recife, existem apenas duas linhas de metrô e os ônibus têm exclusividade em menos de 7% das ruas. O cenário é o mesmo há anos. Essa é a abordagem da terceira reportagem da série Obstáculos da Mobilidade.

A falta de prioridade para o transporte público é o grande problema da mobilidade urbana. No discurso, a importância dele é evidenciada cada vez mais. Também se fala muito na necessidade de qualificação do sistema como estratégia para tirar a classe média do carro e desafogar o trânsito. Na prática, no entanto, nada disso acontece. O sistema público continua sem vez nas ruas, nos trilhos. Continua brigando por espaço com os automóveis, apesar de transportar mais de 90% da população brasileira e ocupar menos de 30% da malha viária. Existe apenas nas promessas do poder público, nos projetos. Como as cidades estão parando por causa das vias saturadas de automóveis, prometer transporte de qualidade agora dá voto. Mas nada muda. A indiferença vale para o ônibus e o metrô.Em 2008, o JC fez uma reportagem revelando que o transporte público tinha algum tipo de preferência em menos de 7% das vias da Região Metropolitana do Recife. Hoje, três anos depois, não houve nenhum avanço. A situação é a mesma. Dos 560 quilômetros de vias por onde os ônibus passam, em apenas 35 quilômetros eles têm espaço exclusivo, sem interferência do automóvel. Fora da capital, a preferência se resume ao corredor da PE-15, com nove quilômetros de extensão. Nada mais. De lá para cá, nenhum corredor para o transporte público foi implantado no Recife e nas cidades vizinhas. Nem ao menos uma faixa preferencial foi pintada. Restaram só promessas.

Quando o foco se transfere para o metrô, a falta de investimentos é ainda maior. O Grande Recife tem apenas duas linhas metroviárias, que foram adaptadas das antigas linhas ferroviárias e totalizam apenas 40 quilômetros de extensão. Embora o número de passageiros cresça anualmente – são 225 mil usuários por dia –, não há qualquer perspectiva de construção de novos ramais. A impressão é de que projetos do gênero estão descartados em Pernambuco. Não se fala sequer na possibilidade de construção de novas linhas.

Enquanto o transporte de massa definha, os investimentos que ainda acontecem no Grande Recife são todos voltados para o automóvel. “O discurso mudou e nunca se falou tanta de prioridade ao transporte coletivo. Temos bons projetos previstos para a Copa do Mundo, mas até agora o montante investido é muito maior para o carro. O governo, por exemplo, vai implantar dois corredores de ônibus de 45 quilômetros por R$ 300 milhões e construir dez terminais integrados por R$ 44 milhões. Esse último valor é o mesmo gasto no alargamento do Viaduto Capitão Temudo, voltado para o automóvel. Veja a desproporção de investimentos. A Via Mangue (corredor para carros na Zona Sul) vai custar dez vezes mais. Isso precisa mudar”, critica o consultor de transportes Germano Travassos.

160 mil viagens perdidas no ano

A falta de prioridade no sistema viário interfere diretamente na qualidade do transporte público. E, sem qualidade, as pessoas não trocam o automóvel pelo ônibus. Por isso, a implantação de corredores ou faixas exclusivas é mais do que urgente. Somente entre janeiro e setembro de 2010, o trânsito impediu a realização de 83 mil viagens de ônibus. Este ano, as perdas já chegam a 160 mil viagens, mais do que o dobro.”Sem prioridade, o serviço não cumpre o horário e perde a confiabilidade do usuário. Intervalos de 15 minutos passam para 40″, pondera Taciana Ferreira, do Grande Recife Consórcio. As vantagens da prioridade para o ônibus são muitas. Linhas que operam nos corredores exclusivos da PE-15 e da Caxangá ultrapassam a velocidade comercial programada, chegando a 28 km/h e 17 km/h, respectivamente. Já em vias comuns, desenvolvem velocidades de até 7 km/h abaixo da programada.

O governo do Estado promete mudanças. E grandes. Vai implantar até 2013 dois corredores – Leste-Oeste e Norte-Sul, totalizando 45 quilômetros exclusivos para os ônibus. Custarão R$ 300 milhões.

Fonte: Jornal do Commercio – Caderno Cidades



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