Ser ciclista no Grande Recife é tão difícil quanto ser pedestre, passageiro de ônibus ou de metrô. A luta por espaço é diária. Os riscos também. Esse é o tema da última reportagem da série Obstáculos da Mobilidade.
O engenheiro elétrico Luciano de Oliveira, 40 anos, é uma daquelas pessoas que cansaram de esperar o mundo ficar perfeito para mudar hábitos e ter mobilidade. Se arriscou. Aliás, há quatro anos se arrisca, literalmente. Vendeu o carro e percorre de bicicleta os 12 quilômetros de ida e volta que separam sua casa, em Parnamirim, Zona Norte do Recife, do trabalho, na Ilha do Leite, área central da capital. E faz o percurso sem passar por uma ciclovia sequer. Se espreme no canto das ruas, impondo presença em meio aos carros. Como muitos, briga por espaço. Esse, aliás, parece ser o fardo dos ciclistas na Região Metropolitana do Recife. São tão ou mais esquecidos que os ônibus nas ruas das cidades.
Oficialmente, existem sete equipamentos voltados para ciclistas no Grande Recife, que totalizam uma malha de 30 quilômetros. Cinco deles estão na capital. Mas na prática, apenas 10 quilômetros podem ser definidos como ciclovias por estarem, de fato, separados fisicamente dos veículos. São os equipamentos da orla de Boa Viagem, com 8,5 quilômetros, e da Avenida Norte, com 1,5 quilômetro. Mesmo assim, ambos têm problemas de manutenção e traçado. O restante é ruim e não pode sequer receber a denominação de ciclovia, ciclofaixa ou faixa compartilhada. Está destruído, obstruído e sem sinalização e continuidade.
A descontinuidade é, na opinião dos ciclistas, o principal problema da pequena malha voltada para as bicicletas. Quando existe algum equipamento, ele não faz a interligação entre bairros, não compõe uma rota. A ciclovia de Boa Viagem é um exemplo do problema, pois ela só existe na orla. “Se continuasse até o Centro do Recife, seria excelente. Mais pessoas usariam a bicicleta. A integração com terminais de ônibus e estações de metrô também é fundamental. Andar no canto das ruas é perigoso e exige preparo”, ressalta Luciano de Oliveira.
Na empresa do engenheiro elétrico, pelo menos 16 dos 30 funcionários usam a bicicleta para se locomover. O curioso é que apenas um deles usufrui de uma ciclovia em parte do percurso. O mais recente equipamento implantado na capital, a ciclovia da Avenida Norte, também sofre com a descontinuidade. Por causa de entraves com desapropriações, o equipamento ficou interrompido em um ponto, obrigando os ciclistas a usar as faixas destinadas a ônibus e carros de passeio. Já a mais antiga e maior das ciclovias do Grande Recife é a mais degradada. Está tão deteriorada que muita gente desconhece o seu traçado na margem leste da PE-15. Virou rua, extensão de bar, oficina e estacionamento de supermercado.
O poder público, como sempre, promete. A Secretaria Estadual das Cidades garante que todos os corredores de ônibus implantados para a Copa do Mundo terão ciclovias, totalizando mais de 70 quilômetros. Pelo plano de mobilidade da Prefeitura do Recife, a cidade terá 424 quilômetros de ciclovias. Aos ciclistas, resta torcer para os projetos saírem do campo das promessas.
Fonte: Jornal do Commercio – Caderno Cidades