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A arte que anda de ônibus no Recife

O flautista Thiago Cavendish e o violinista Jessé de Paula não se conhecem, mas emocionam os passageiros dos coletivos onde tocam músicas clássicas e populares

Foto: Michele Souza/JC Imagem

Dois artistas que nem se conhecem, mas que têm em comum uma nobre missão: emocionar as pessoas através da música. Thiago Cavendish, 36 anos, toca flauta transversal. Jessé de Paula, 29, é mestre no violino. Com jeito simples e os corações cheios de boa vontade, os músicos fazem dos ônibus o seu palco e levam para dentro deles momentos dignos dos grandes concertos. Thiago e Jessé são a prova viva de que para a arte não existem barreiras. No repertório, preciosidades como “Bachianas” de Heitor Villa Lobos, “Inverno”, do italiano Antonio Vivaldi, “Carinhoso” de Pixinguinha, e ritmos do Movimento Armorial. O público fica maravilhado e retribui com aplausos.

Desde janeiro deste ano, Thiago Cavendish embala as viagens dos passageiros que circulam na Região Metropolitana do Recife. Três vezes por semana, ele coloca o instrumento debaixo do braço e viaja nos coletivos, apresentando músicas eruditas à população. Quem gosta contribui com dinheiro, um sorriso ou um aperto de mão. “Decidi investir na música clássica porque acredito que é o estilo mais poderoso para sensibilizar o público. Procuro levar coisas diferentes daquilo que as pessoas estão acostumadas a ouvir. A música clássica toca o ser humano e nos aproxima de Deus”, afirmou.

Autodidata, Thiago confessa que, no começo, sentiu medo de ser rejeitado. “ A primeira vez que toquei minha flauta em um ônibus consegui arrecadar apenas R$ 5. Quando desci, respirei aliviado e vi que era capaz de fazer o que eu gosto”, explicou. Ao final das melodias, Thiago conta a história de cada música. O repertório é para lá de sofisticado. “Costumo tocar o 2º movimento de “Inverno”, de Vivaldi; “Jesus, alegria dos homens”, de Bach; “Carinhoso”, de Pixinguinha e “O trenzinho caipira” e “As Bachianas”, de Heitor Villa Lobos”, explicou.

“Já tinha ouvido falar do trabalho dele e estava torcendo para encontrá-lo no mesmo ônibus que eu. A música dele é maravilhosa porque é totalmente diferente das que estamos acostumados a ouvir”, disse Angélica Barbosa de Santana, 42 anos, que todos os dias usa a linha Alto de Santa Isabel para chegar ao trabalho.

Há uma década, o violinista Jessé de Paula usa o clássico instrumento de cordas para alegrar a alma do grande público. A relação dele com a música vem de muito cedo. Aos 6 anos, já tocava em grupos religiosos. Estudou no Centro de Educação Musical de Olinda (Cemo) e integrou a Orquestra Jovem da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

“A música é minha vida, é a conscientização sociocultural, além do meu meio de sobrevivência. Meu trabalho é itinerante. Toco em praças, estações, ônibus, bares e restaurantes”, afirmou. Atualmente, seu público tem a oportunidade de conferir as trilhas sonoras de novelas com uma roupagem diferente. Quem assiste à apresentação fica encantado com tom erudito dado às músicas. Entre as mais pedidas estão “Ainda Bem”, de Marisa Monte e “Show das Poderosas”, de Anitta.

“Comecei a tocar para o grande público porque precisava de dinheiro. Dessa maneira, meu repertório foi sendo criado pelas pessoas”, revelou. Um dos momentos mais felizes da carreira itinerante de Jessé foi o reconhecimento vindo de uma das maiores autoridades em Cultura Popular Nordestina. “Em agosto do ano passado, fui até a casa de Ariano Suassuna e comecei a tocar diante da porta. Ele ouviu, gostou e mandou me chamar. Depois, disse que eu poderia me considerar um legítimo integrante do Movimento Armorial e me convidou para fazer algumas aberturas de aulas-espetáculos”, contou o artista.

Fonte: Portal JC Online